O cabelo tá curto agora e as camisas têm mangas inteiras. O sapato sempre tá limpo e a calça sempre bem passada.
Ele considerava que a razão é uma força mais do que natural e que não se refuta a fé: que apesar do Deus ser posto acima de tudo, também é acreditado que o homem goza de certa autonomia - para engraxar os sapatos e passar as calças, talvez.
Existe uma outra realidade visível apenas aos que bebem: existe um mundo e existe seres e coisas.
As coisas tendem a se modificar, quer seja acompanhado pelo relógio quer seja visto sob forma de rugas. Mas mudam.
E é a essa mudança que se deve o cabelo, a camisa, o sapato, a calça e também os óculos, esqueço quase, de mencionar há pouco.
Essa ostentação, ufania ou vanglória do que se tornara e não do que era chega a desvairar.
É tido como o que se olha nas poças e nos carros, nas colheres e nos botões de metal. Tudo que concebe à imagem o prazer de sua presença, cintila à sua vista.
E as pessoas passam. Nas ruas cheias e nas calçadas vazias; Nos bares infeccionados e sem possibilidade de bula pra cura. As pessoas passam. E como num estalo com nexo, ninguém fica. Se a insolência visual invade bandeiradas e quintais com a força de um raio, a solidão também inflama como aço em brasa.
O quarto alugado em que dorme, é contrário a mudança: roupas que se cruzam pelo chão e fios desgrenhados que embolam-se na porcelana da pia. É contrário também à estampa no espelho, não de outra pessoa se não de si mesmo, que apresenta o velho eu de forma amarga. Solta a fumaça do antigo Marlboro e empilha as culpas todas. Tudo aprisionado lá dentro como pássaro refutado dentro de si mesmo.
Ele considerava também que a consciência é uma situação própria de todos os homens mas, só aceitava isso do lado de dentro do quarto, onde o espelho penalizava o passado e o fazia pesar mil vezes mais. Como já passou de cinco linhas essa história, o que a princípio não dava sinais de que iria fazê-lo, posso contar a relação com o espelho. Dele, dele mesmo e do reflexo.
Quando se via - abaixava a cabeça e aceitava a condição. Mas quando se distanciava, para depois da porta do quarto, procurava um outro cúmplice mais silencioso - talheres, parachoques, taças. Gostaria de olhar a si mesmo sem a tormenta da culpa e da rejeição, e com investigações
diárias, isso seria cada vez mais penoso.
Mudou de roupa, de cabelo e de ar, como já se permitiu deixar explícito no início.
A falsidade da crença residia, na possibilidade de achar um outro objeto que lhe calasse a voz do ontem. Mas quanto mais saía e procurava-se a si mesmo nos desconhecidos produtos e substâncias - de metal, plástico, vidro, mais a percepção de sua real situação tornava-se mais pungente o fim.
Ao voltar, após os anos que se seguiram na busca, ao voltar para o quarto e ainda sem conseguir fugir de seu principal inquisidor, o espelho enfim lhe revela: a engenhosa teia costurada por si mesmo, esbarra no seguinte embaraço: nem tudo que muda remove o que passou. E o legítimo espelho que aponta as muitas verdades não aceitas, esconde-se nos meandros do lobo frontal.
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Tenho feito coisas normais ultimamente. Já não fico sem dormir, raramente pulo as refeições, tenho participado de coisas que envolvam aglomerados humanos, fiz as pazes com meia dúzia. Ensaiei uns saltos ornamentais à beira mar, uma receita complicada de arroz e umas voltas com o carro.
Comprei uma roupa branca para virar o ano e aliás, tenho saído com roupas claras sem me desesperar - estou no meio de uma trégua com o espelho, sem me achar a mais horrível das mulheres e sigo acreditando nos elogios dos que notaram a diferença. Os muitos elogios, então. Dizem que estou, se não mais simpática, menos antipática. Dizem que voltei a ter luz própria, a irradiar calor, a rir de verdade.
Deixei meu cabelo crescer a muito custo e deixei de comer carne com muita facilidade. Deixei que me vissem os cachos renegados, me deixei flagrar sem maquiagem e de pés descalços. Deixei que meu sentimento mais caro fosse encenado, que a dor ficasse exposta, que descobrissem que o sofrimento era da personagem e também da atriz. Deixei que me vissem sob os holofotes quentes, sem barreiras ou muralhas. Deixei que me elogiassem sem falsa modéstia.
Deixei de chorar por horas e horas. Deixei que as lágrimas só aparecessem com motivos reconhecidos em três vias no cartório. Deixei de pensar nisso a cada instante. Deixei de não viver totalmente por algo que é só um pedaço - o todo sou eu.
Descobri que não entro mais em desespero quando toca o telefone e que não sumo mais depois de duas frases carinhosas. Descobri que me deixo apaixonar quando rio abertamente e sem medo. Descobri que posso me deixar ser, simplesmente leve.
Deixei de ter medo da leveza.
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Tem o deserto e todos os seus dissabores. Mas também tem o deserto e suas promessas de águas turvas. Também com seus encantos que excitam, repletos de gotas translúcidas e dedilhados afinados.
O que fica em mim são grãos e gotas que se misturam entre si, entrelaçam-se, me pegam pela mão e marcam o compasso: tem o deserto e a água turva à frente.
Atirar-se ao estranho profundo é desafiar a linha íngreme do tempo: é desejar o velejo, o nado, a perdição.
É olhar sob o espelho e enxergar grãos e águas que gotejam como fonte. É olhar para nós e presenciar as premeditações dos astros.
Eram águas límpidas aquelas. Onde o reflexo de anseios baratos desfilavam suas melhores caras. Os pés cansados, deitavam às margens suas principais diretrizes: pélvicas, térmicas.
Eram doloridos, os desertos todos.
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Esconderam os passaportes nos braços do navio
E pra noite de luar, acenaram pro farol
Das memórias que viriam e não vêm mais
Somente nossas fotos reveladas em papel
Que viajam em alto mar
Suspenderam a viagem, a viagem de sete léguas
Suspenderam a história, o que iria chegar - não chega mais
No baú de nossas falhas, doses certas sobrevoam pelo céu
E na lembrança de um tempo
Engrenagens nos atiram ao convés
E pra noite de luar, acenaram pro farol
Das memórias que viriam e não vêm mais
Somente nossas fotos reveladas em papel
Que viajam em alto mar
Suspenderam a viagem, a viagem de sete léguas
Suspenderam a história, o que iria chegar - não chega mais
No baú de nossas falhas, doses certas sobrevoam pelo céu
E na lembrança de um tempo
Engrenagens nos atiram ao convés
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Um cachorro acordado à solavancos pelo tempo. Pelo momento da chuva fina e gelada, que escorraçava do meio fio, à pontapés, o nobre cão. Animal de alma contundente e manias incômodas - piscava o olho castanho-esquerdo de minuto em minuto; latia para carros brancos, e não de outra cor; dormia em lugares abertos: era claustrofóbico o nobre cão.
Uma carta, no bolso dizia o seguinte: Com minhas meias verdades te fiz escravo. Com minhas meias verdades comi teu pão. Com minhas estranhas mentiras neguei teu sonho e com minhas muitas faces, te mandei embora.
Um bicho mordido, sangrado, debilitado e exausto, em tempos de outrora teria se enforcado com a elegante gravata - elegante, sim. Mas ainda mais fundo, noutros tempos antes dos de outrora, teria fugido enquanto ainda havia chance.
Que peste o amor!
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Multiplica plantas por meio de estacas. Com poses sorrateiras, olhares radiantes e sorriso de vil metal. Ele impressiona com cores, com tempos e ventos. Com traços. Parecença, semelhança: traços de família. Embaraços.Tem pés fugídios e um guia - mochileiro, por que não?
São vinte e dois anos, e ainda um tanto distante daquele retorno de saturno, mas mais perto da lua desde então. Talento para as rimas e os refrões; para a lenha e o fogão; para o riso e a preguiça. E os Deuses de veraneio, assim mesmo a passeio, aplaudem o brilho; a matiz; a saturação.
À coruja desarmada que és.
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