
"Lei do uso ou desuso: o uso de determinadas partes do corpo do organismo faz com que estas se desenvolvam, e o desuso faz com que se atrofiem."
LamarckCom que cinismo ele ou ela relatariam isso aos jornais? Retratariam então o dito passeio à beira mar?Pois bem.Caminhavam extenuados lado a lado, chutando areia; molhando o fio-de-contas de Ogum; contemplando o chão. Não ousavam olhar pra frente nem para cima, mas diretamente para baixo. Down. Abajo. Bas. Pois era assim que se sentiam naquela tarde além-dia: invenção prosaica de Deus.Deitariam nus nos rochedos escorregadios (rocas batidas do mar). Mar. Fiandeira com nome de Deusa mas que jamais saberemos sua real função. Deitariam sim, não fosse os cortes ardidos nas pernas e nos braços. Gritos moribundos que sucumbiam pela pele. Sucumbidos ao próprio desalento. Ser suprimido, abolido de si mesmo.A briga tomara proporções excedidas, ultrapassantes dos limites - limites das cartas; limites dos búzios; limites das roupas. Ele atuara sobre ela imaginando um grande foco de luz em si mesmo. Digamos que, sob as luzes da ribalta, ele atingira seu lado mal seguro, golpeando-a na fronte e na face. Golpeando-a no sexo e no desejo. E atingido-a apenas: golpeou-a na ingratidão.Ela, sem rumo e sem vela, apenas rogava por desculpas a si pelas falhas e pelas injúrias do tempo. Pela fome do outro e pelo engano verbal. Pela ofensa amarga e pelo sangue pisado.Ela pedia com força, pelo perdão e pela posse dos sentidos. Ineficaz.O lado bicho-homem assolava e ventava como dia previsto pela moça do tempo. O lado bicho-homem atirava-se contra o corpo magro da outra e dizia em tons cada vez mais remotos que o aprendizado viria assim, assim mesmo, da pior maneira e com o pior dos odores.O bicho-homem roía o osso da carne mal passada e repetia pra si mesmo que só pararia levada a alheia alma à exaustão. O bicho sangrava a si mesmo e gemia com força e deleite. Gemia com ânsia e tormento.E o corpo magro esmagado contra a parede sentia o cheiro da folha de laranjeira os convidando para um breve passeio à beira mar.Sem nudez, sem sexo, sem moral.E numa distante aldeia com almas danadas, chutando areia; molhando o fio-de-contas de Ogum; contemplando o chão. Um bicho e um capacho. Viviam assim: recebendo convites de laranjeiras e pescas salgadas. Tão cheias de sal quanto o homem e a mulher.


1 comentários:
Tem o talento da alma que geme. São tão lindas suas palavras e tua face.
deixo um beijo do amigo apaixonado
Postar um comentário