Segunda-feira, Janeiro 16
Para as muitas Fugas por entre nossas Janelas
O cabelo tá curto agora e as camisas têm mangas inteiras. O sapato sempre tá limpo e a calça sempre bem passada. Ele considerava que a razão é uma força mais do que natural e que não se refuta a fé: que apesar do Deus ser posto acima de tudo, também é acreditado que o homem goza de certa autonomia - para engraxar os sapatos e passar as calças, talvez. Existe outra realidade visível apenas aos que bebem: existe um mundo e existe seres e coisas. As coisas tendem a se modificar, quer seja acompanhado pelo relógio - quer seja visto sob forma de rugas. Mas mudam. E é a essa mudança que se deve o cabelo, a camisa, o sapato, a calça e também os óculos, esqueço quase, de mencionar há pouco. Essa ostentação, ufania ou vanglória do que se tornara e não do que era, chega a desvairar. É tido como o que se olha nas poças e nos carros, nas colheres e nos botões de metal. Tudo que concebe à imagem o prazer de sua presença, cintila à sua vista. E as pessoas passam. Nas ruas cheias e nas calçadas vazias; Nos bares infeccionados e sem possibilidade de bula pra cura. As pessoas passam. E como num estalo com nexo, ninguém fica. Se a insolência visual invade bandeiradas e quintais com a força de um raio, a solidão também inflama como aço em brasa. O quarto alugado em que dorme, é contrário a mudança: roupas que se cruzam pelo chão e fios desgrenhados que se embolam na porcelana da pia. É contrário também à estampa no espelho, não de outra pessoa se não de si mesmo, que apresenta o velho eu de forma amarga. Solta a fumaça do antigo Marlboro e empilha as culpas todas. Tudo aprisionado lá dentro como pássaro refutado dentro de si mesmo. Ele considerava também que a consciência é uma situação própria de todos os homens, mas, só aceitava isso do lado de dentro do quarto, onde o espelho penalizava o passado e o fazia pesar mil vezes mais. Como já passou de cinco linhas essa história, o que a princípio não dava sinais de que iria fazê-lo, posso contar a relação com o espelho. Dele, dele mesmo e do reflexo. Quando se via - abaixava a cabeça e aceitava a condição. Mas quando se distanciava, para depois da porta do quarto, procurava outro cúmplice mais silencioso - talheres, pára-choques, taças. Gostaria de olhar a si mesmo sem a tormenta da culpa e da rejeição, e com as muitas investigações diárias, isso seria cada vez mais penoso. Mudou de roupa, de cabelo e de ar, como já se permitiu deixar explícito no início. A falsidade da crença residia, na possibilidade de achar outro objeto que lhe calasse a voz do ontem. Mas quanto mais saía e procurava a si mesmo nos desconhecidos produtos e substâncias - de metal, plástico, vidro, mais a percepção de sua real situação tornava mais pungente o fim. Ao voltar, após os anos que se seguiram na busca, ao voltar para o quarto e ainda sem conseguir fugir de seu principal inquisidor, o espelho enfim lhe revela: a engenhosa teia costurada por si mesmo, esbarra no seguinte embaraço: nem tudo que muda remove o que passou. E o legítimo espelho que aponta as muitas verdades não aceitas, esconde-se nos meandros do lobo frontal.
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2 comentários:
Linhas assim trazem felicidade! Parabéns!
Toda mudança parte do que fomos para o que pretendemos ser no presente/futuro..
mesmo m(ol/u)dados pelo desenrolar dos anos, levamos junto toda bagagem do que vivemos, como uma mala velha onde guardamos os vários "eus" que fomos...
Bacana o texto.. parabéns
Eduardo Magrão
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