Terça-feira, Janeiro 3
Pequena Pipa e Peão
Tenho feito coisas normais ultimamente. Já não fico sem dormir, raramente pulo as refeições, tenho participado de coisas que envolvam aglomerados humanos, fiz as pazes com meia dúzia. Ensaiei uns saltos ornamentais à beira mar, uma receita complicada de arroz e umas voltas com o carro.
Comprei uma roupa branca para virar o ano e aliás, tenho saído com roupas claras sem me desesperar - estou no meio de uma trégua com o espelho, sem me achar a mais horrível das mulheres e sigo acreditando nos elogios dos que notaram a diferença. Os muitos elogios, então. Dizem que estou, se não mais simpática, menos antipática. Dizem que voltei a ter luz própria, a irradiar calor, a rir de verdade.
Deixei meu cabelo crescer a muito custo e deixei de comer carne com muita facilidade. Deixei que me vissem os cachos renegados, me deixei flagrar sem maquiagem e de pés descalços. Deixei que meu sentimento mais caro fosse encenado, que a dor ficasse exposta, que descobrissem que o sofrimento era da personagem e também da atriz. Deixei que me vissem sob os holofotes quentes, sem barreiras ou muralhas. Deixei que me elogiassem sem falsa modéstia.
Deixei de chorar por horas e horas. Deixei que as lágrimas só aparecessem com motivos reconhecidos em três vias no cartório. Deixei de pensar nisso a cada instante. Deixei de não viver totalmente por algo que é só um pedaço - o todo sou eu.
Descobri que não entro mais em desespero quando toca o telefone e que não sumo mais depois de duas frases carinhosas. Descobri que me deixo apaixonar quando rio abertamente e sem medo. Descobri que posso me deixar ser, simplesmente leve.
Deixei de ter medo da leveza.
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